Durante anos, aplicámos ao Neandertal o estereótipo de facínora rude e grosseira, e a própria palavra encontra-se carregada de sentido pejorativo. Pode observar-se como o crânio deste indivíduo de sobrancelhas pesadas alojava um cérebro de volume pouco superior ao nosso, sugerindo uma capacidade cognitiva relevante. Numa caverna francesa junto a Arcy-sur-Cure, foi descoberto um osso de Neandertal numa camada de sedimentos que também continha objectos ornamentais como dentes de animal furados e anéis de marfim, um indício de arte decorativa. Mais recentemente, os cientistas Francesco d'Errico e Marie Soressi analisaram centenas de blocos de dióxido de manganésio oriundos de Pech de l'Azé, outra caverna francesa onde viveram Neandertais, e sugeriram que o material era um pigmento negro utilizado para decorar o corpo.De uma perspectiva totalmente não científica, a "humanidade" parece mais directa e compreensível num objecto tão simples como um dente furado de animal ou um anel de marfim do que em qualquer crânio ou fémur fossilizado. A criatura que usou o anel, o dente ou a tatuagem não precisava desses ornamentos para sobreviver. Essa era evidentemente a função das pontas de lança e dos raspadores de pedra. Porém, os artefactos ornametais descobertos em jazidas de Neandertais evocam uma expressão de criatividade. Ao que parece, os Neandertais não se limitavam a sobreviver. Queriam ser diferentes. Queriam ornamentar-se. A distância entre a pré-história e o presente parece, afinal, não ser tão grande.
A Eurásia foi deles durante 200 mil anos. Depois surgiu uma nova espécie. Dotados de grandes cérebros e de uma força enorme, os Neandertais pareciam equipados para superar qualquer obstáculo. No entanto, à medida que o clima mudou e uma nova espécie humana surgiu, as suas populações em declínio procuravam refúgio nas terras altas. Seriam eles uma estirpe inteligente de sobreviventes, muito parecidos connosco, ou um impasse com dificuldades cognitivas, sem futuro? Quando os nossos antepassados surgiram, há cerca de 45 mil anos, descobriram uma paisagem já habitada. Os Neandertais eram geneticamente idênticos (99,5% de semelhança), mas tinham desenvolvido elementos anatómicos distintos durante centenas de milhares de anos no clima frio da Eurásia. Apesar de pertencerem a duas linhagens diferentes, os Neandertais e o Homem actual têm muito em comum.

Fonte: National Geographic de Novembro de 2008
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